2007
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Leonardo Electronic Almanac ISSN NO : 1071 - 4391 The MIT Press
 
 
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Os "Debates Leonardo Electronic Almanac" (LEAD)
Edição Especial A Natureza Selvagem e a Vida Digital
Jennifer Willet
 

LEAD: A Natureza Selvagem e a Vida Digital
ao vivo com Jennifer Willet

Clique aqui para fazer download da versão pdf.
Também disponível em Inglês.

Ver o ensaio de Jennifer Willets: "Bodies in Biotechnology: Embodied Models for Understanding Biotechnology in Contemporary Art" (LEA Vol 14 No 07 - 08 2006)

Os "Debates Leonardo Electronic Almanac" (LEAD) acompanham edições especiais selecionadas do LEA. Os LEAD tem dois componentes,uma seção de bate-papo ao vivo com autores e artistas do LEA e um grupo de discussão moderado em que os leitores podem se envolver com os autores da edição especial.

Edição Especial A Natureza Selvagem e a Vida Digital, editada por Dene Grigar e Sue Thomas (http://leoalmanac.org/journal/Vol_14/lea_v14_n07-08/home.asp).

Bate-Papo com a artista Jeniffer Willet.

Data do Bate-Papo: Quarta-Feira, 17 de Janeiro.

<TRANSCRIÇÃO>
Ryan Griffis: Bem-vindos aos terceiro bate-papo da série A Natureza Selvagem e a Vida Digital do Leonardo Electronic Almanac, com Jennifer Willet, autora de texto publicado na edição.

Jennifer Willet: Obrigado. É um prazer acompanhá-los nesta discussão.

RG: Seu trabalho (com colaboração de Shawn Bailey) pode ser encontrado online em http://www.bioteknica.org e sua contribuição para a edição do LEA em: http://leoalmanac.org/journal/Vol_14/lea_v14_n07-08/jwillet.asp . Ela está escrevendo de Montreal, Canadá, onde ensina na Concórdia, e também é candidata ao Doutorado no Programa Interdisciplinar de Humanidades. Eu tenho uma pergunta inicial...
Em seu ensaio para a edição do LEA, Jennifer, você propõe um “desvio de metodologia” (do teórico ao prático)... “ao invés de identificar o especialista, analisando e teorizando as circunstâncias da biotecnologia...” você propõe “um modelo para um engajamento crítico em que artistas, e líderes de negócio, e mães, e estudantes, são convidados a participar e serem implicados nos processos biotecnológicos.” Gostaria de saber se você pode discutir os benefícios deste desvio do ponto-de-vista da prática distribuída da biotecnologia, em oposição às formas mais convencionais de crítica e engajamento que são normalmente adotadas com tecnologia – no caso específico da biotecnologia acho que você faz isso por meio dos exemplos de prática artística em seu ensaio, mas talvez seja possível expandir um pouco mais?

JW: Sim, Ryan, estou interessada em propor uma metodologia crítica participativa, em que não-especialistas em artes e humanidades se envolvam criticamente com cientistas por meio de experiências de primeira ordem, ao invés de análises de segunda ou terceira ordem do campo... em outras palavras, muitas vezes análises de protocolos científicos por não-especialistas sem experiência de primeira mão desconsideram aspectos significativos dos protocolos em questão, que só podem ser adquiridos pelo trabalho direto com a ciência. Por exemplo, antes de eu ganhar experiência em laboratório, meu entendimento de vários protocolos da biotecnologia eram puramente teóricos e, portanto, estavam sujeitos ao predomínio de metáforas que tornavam minha interpretação destes protocolos flutuante.

RG: Como o relacionamento com “experiências de primeira ordem” se reconcilia com conhecimentos históricos, para desenvolver um relacionamento crítico como um campo e um discurso como o da biotecnologia, em seu trabalho? – e você poderia falar um pouco mais sobre como sua exposição a esses protocolos permitiu, na prática, uma mudança na forma como as metáforas dominantes regularam suas interpretações? Talvez algo concreto, relacionado com a parte final de sua resposta.
JW: Para responder a primeira metade de sua pergunta, depois que adquiri experiência em laboratório, eu percebi que eu tinha mais conexão com textos escritos por teóricos que eram cientistas ou tinham alguma experiência de campo. Por exemplo, Bruno Latour, Thomas Kuhn e Evelyn Fox-Keller. Mais que com textos em que eu tinha me apoiado antes, [que eram] mais ligados às artes tradicionais e às humanidades. Para responder a segunda metade de sua questão: depois de minhas primeiras experiências trabalhando em laboratórios, durante a residência no SymbioticA, na Universidade do Oeste (Austrália), ficou imediatamente claro para mim que, de forma geral, a Biotecnologia é uma tecnologia que mobiliza sistemas vivos de forma industrializada. Eu fiquei estupefata com esta descoberta.

Marcus Bastos: Como seu trabalho com performance se encaixa neste contexto?

JW: Shawn Bailey e eu concordamos em transformar toda a parte conceitual de nossa prática no projeto Bioteknica em uma performance contínua. Isso inclui performances em espaços de galeria, mas também ações no laboratório, e discussões e negociações administrativas necessárias para nos envolver com nossa prática.

RG: Para mim, alguém que não trabalha em laboratórios, e mesmo assim se mantém completamente fascinante e interessado em tecnologia genética — como é o caso de Sheldon Krimsky no começo das ciências transgênicas (como “Genetic Alchemy” para a publicação de 1985 do MIT Press) —, foi muito influente para compreender como a ciência e os processos legislativos se aproximam, para produzir um ambiente em que constantemente nos deparamos com os desenvolvimentos da biotecnologia, do ponto-de-vista de uma análise de economia política.

JW: Não conheço este texto – no entanto, minha própria pesquisa tende a me levar para longe da genética, em direção a outras formas de biotecnologia...

RG: Com o Bioteknica, você e Shawn assumem uma identidade industrial, algo que é feito, por várias razões, por muitos artistas/coletivos... você poderia falar sobre isso no contexto da biotecnologia enquanto indústria – quais são algumas de suas razões para considerar esta prática produtiva? (com industrial, quero dizer corporativo, mas também produtivo, nos termos da indústria)

JW: Quando o Bioteknica foi concebido, estávamos mais focados na discrepância que víamos entre a representação da Biotecnologia no discurso público e nosso entendimento do que estava acontecendo com a pesquisa biotecnológica atrás de portas fechadas, em laboratórios corporativos e universitários. Nós escolhemos preparar a fachada corporativa como forma de desemaranhar sua autoridade, e de convidar as pessoas a pensar criticamente sobre as decisões científicas tomadas no contexto da busca pelo ganho financeiro, ao invés de preocupações humanitárias ou ecológicas. Ainda que nós ainda continuemos a utilizar essa fachada [corporativa], nossa ênfase se deslocou para a encenação de uma metodologia participativa crítica.

RG: Isso é bastante semelhante a aspectos da conversa que tivemos no primeiro bate-papo da série... em que discutimos práticas como a de Brett Stalbaum com o C5, entre outras que exploram uma posição crítica que não é paródica ou irônica em sua performance. Claro, em relação às ciências biológicas, o CAE e outros como subRosa tem explorado esse território pedagógico que você e pessoas como Adam Zaretsky — que você discute junto com TC&A (Tissue Culture & Art Project – Oron Catts e Ionat Zurr) — estão levando ainda mais adiante.

JW: Sim, certamente, e minha pesquisa deve bastante a muitos destes artistas. Eu concebo uma segunda geração de bio-artistas, em que os fundamentos vêm da polinização com outros artistas pioneiros, mais que com cientistas. Eu diria que o Bioteknica não é inerementemente pedagógico, mas ao invés disso estamos envolvidos com um corpo de pesquisa, e tornando as especificidades destas experiências disponíveis para o público em geral.

MB: Você poderia nomear alguns destes artistas? Talvez Kac ou Reeva Stone? De que forma a primeira geração difere da sua?

JW: Certamente nossos colaboradores TC&A e Adam Zaretsky.  Em termos de teoria estou bastante interessada nos textos do CAE (Critical Art Ensemble) e Natalie Jeremijenko. E eu preciso incluir George Gessert, como um modelo de envolvimento direto com as ciências biológicas fora de um contexto institucional. Em termos de diferenças entre nossas práticas, o Bioteknica não se define apenas pela prática da Bio-Arte. Chegamos a soluções Biológicas “molhadas”, no âmbito de um escopo mais amplo da produção de arte contemporânea, incluindo instalação, vídeo, impressão digital, performance, e produção teórica. Em outras palavras, viemos de um background artístico, confrontado com ciência amadora.

RG: Há alguma discussão corrente nos círculos da Bio-Arte que seja semelhante à que ocorre em novas mídias, cuja preocupação é a institucionalização da tecnologia, e como isso pode comprometer a habilidade de sermos produtores críticos de cultura? A discussão parece ter mais potencial agora, em que posições antes inexistentes estão sendo exploradas.

JW: Sim, há uma discussão nos círculos da Bio-Arte a respeito da petrificação das práticas biológicas críticas e da perpetuação dos impulsos corporativos biotecnológicos. Em outros termos, há uma preocupação de que, não bem contextualizadas, estas práticas servirão não apenas como propaganda, mas como estetização do futuro Biotech.

RG: Me lembro de uma discussão sobre a exposição Paradise Now (http://www.genomicart.org/pn-home.htm) alguns anos atrás... em que Jacqueline Stevens e Natalie Jeremijenko prepararam alguns contra-eventos com estas preocupações (http://mrl.nyu.edu/~nat/investnow/index.html).

JW: Sim, e o CAE escreve diretamente sobre estas preocupações em seu livro The Molecular Invasion (http://www.critical-art.net/books/molecular/). Eles afirmam que estão preocupados com artistas que possivelmente sejam atraídos pela Bio-Arte por como forma de alavancar a carreira e não por um investimento mais profundo em suas idéias importantes.

RG: Em certos círculos ativistas/científicos (especialmente o grupo ETC) foi dada muita ênfase, recentemente, na “genômica sintética” (relacionada ao impulso inicial de Venter) e na convergência de bio- e nano-tecnologias como um novo capítulo nas ciências biológicas. Isto é algo que ecoa em seu próprio trabalho ou no de algum artista que você conheça? O alto investimento em biodefesa, como o projeto sobre invasão molecular do CAE que você discute, parece estar atraindo alguma atenção.

JW: Não em minha prática per se...

RG: ... Ainda tenho que discutir os desenvolvimentos da genômica sintética com algum artista, então estava apenas curioso. Ainda estou acertando os ponteiros com  leituras sobre o que está acontecendo de fato, e estive pensando se isso teve algum impacto em pessoas que trabalham mais diretamente com ciência e ambientes de laboratório.

JW: No entanto, Natalie Jeremijekno escreve bastante sobre incursões militares na biotecnologia e defende especificamente em seu artigo chamado “o hobista BioTech” que a pressão para que artistas (particularmente o CAE) não se envolvam com biotecnologia é um desejo militar mais que corporativo.

RG: E com coisas como o recente US Biodefense Advanced Research and Development Authority, criado especialmente para ventilar dinheiro para pesquisas embrionárias nas áreas biotech/pharma, esta linha (militar/corporativo) às vezes se torna desfocada.

JW: Sim, concordo, particularmente nos EUA a linha entre os impulsos militar e corporativo fica muitas vezes desfocada.

JW: Eu não me especializei nos desenvolvimento da genômica sintética. No entanto, eu imagino que Eugene Thacker conhece bastante a área. Além disso, há uma rede de arte e ciência na Suécia que fez conexões entre artistas e cientistas que trabalham com nanotecnologia – estes são desdobramentos fascinantes para o futuro.

RG: Muito obrigado pelo bate-papo Jennifer, foi ótimo!

JW: Muito obrigado pelo convite para participar neste bate-papo ao vivo, foi um prazer.
<fim da transcrição>

Biografia da Autora
Jennifer Willet é artista, e participa do Studio Arts. É aluna de doutorado no programa Interdisciplinar de Humanidades, na Universidade Concordia (Montreal, Canadá). Seu trabalho explora as noções de “self” e subjetividade em sua relação com tecnologias biomédicas, bionformáticas e digitais, com ênfase na crítica política e social. Ela exibiu e apresentou sua pesquisa no Canadá e internacionalmente. Desde 2002, Willet e Shawn Bailey colaboram no projeto inovador de computação, biologia e artes chamado BIOTEKNICA. BIOTEKNICA foi exibido em vários formatos, no Festival Break 2.3, Slovenia (2005), na Bienal Perth de Artes Eletrônicas, Australia (2004), no Festival Europeu de Artes em Mídia, Alemanha (2003), na Sociedade de Artes e Tecnologias (SAT) Montreal, Canada (2005), e na The Forest City Gallery London, Canada (2004), entre outros. Além disso, BIOTEKNICA foi apresentado em entrevistas e conferências em vários lugares do Canadá, França, Austrália, Escócia, Alemanha, e Espanha. A pesquisa BIOTEKNICA foi desenvolvida durante residência no Banff Centre para as Artes, em Banff, Canada (2002) e no SymbioticA, da Universidade do Oeste da Austrália, em Perth, Australia (2004, 2006). http://www.bioteknica.org/

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Referência para citação desta Transcrição de Bate-Papo dos Debates Leonardo Electronic Almanac (LEAD)

MLA Style
Willet, Jennifer. “Jennifer Willet: LEAD – Transcrições de Bate-Papo A Natureza Selvagem e a Vida Digital”, “Unyazi” Edição Especial, Leonardo Electronic Almanac Vol. 15, No. 1 - 2 (2007). 1 Jan. 2007 <http://leoalmanac.org/resources/lead/digiwild/jwilletpt.asp>.

APA Style
Willet, J (Jan. 2007) “Jennifer Willet: LEAD – Transcrições de Bate-Papo A Natureza Selvagem e a Vida Digital”, “Unyazi” Edição Especial, Leonardo Electronic Almanac Vol 15, No. 1 - 2 (2007). Visitado em 1 Jan. 2007 no endereço <http://leoalmanac.org/resources/lead/digiwild/jwilletpt.asp>

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